1 de agosto de 2016 Artist Image

Comissão de Frente – 1982

  • Nação

    Autores: João Bosco, Paulo Emílio & Aldir Blanc

    Dorival Caymmi falou para Oxum:
    com Silas tô em boa companhia.
    O Céu abraça a Terra,
    deságua o Rio na Bahia.

    Jeje
    minha sede é dos rios
    a minha cor é o arco-íris
    minha fome é tanta
    planta florimã da bandeira
    a minha sina é verdeamarela
    feito a bananeira.

    Ouro cobre o espelho esmeralda
    no berço esplêndido,
    a floresta em calda,
    manjedoura d´alma
    labarágua, sete queda em chama,
    cobra de ferro, Oxum-Maré:
    homem e mulher na cama.

    Jeje
    tuas asas de pomba
    presas nas costas
    com mel e dendê
    aguentam por um fio.

    Sofrem
    o bafio da fera,
    o bombardeiro de caramuru,
    a sanha de Anhanguera.

    Jeje
    tua boca do lixo
    escarra o sangue
    de outra hemoptise
    no canal do Mangue.

    O uirapuru das cinzas chama:
    rebenta a louca, Oxum-Maré:
    dança em teu mar de lama.

  • A Nível de

    Autores: João Bosco & Aldir Blanc

    Vanderley e Odilon
    são muito unidos
    e vão pro Maracanã
    todo domingo
    criticando o casamento
    e o papo mostra
    que o casamento anda uma bosta...
    Yolanda e Adelina
    são muito unidas
    e fazem companhia
    todo domingo
    que os maridos vão pro jogo.
    Yolanda aposta
    que assim a nível de Proposta
    o casamento anda uma bosta
    e a Adelina não discorda.
    Estruturou-se um troca-troca
    e os quatro: hum-hum... oqué... tá bom... é...
    Só que Odilon, não pegando bem a coisa,
    agarrou o Vanderley e a Yolanda ó na Adelina.
    Vanderley e Odilon
    bem mais unidos
    empataram capital
    e estão montando
    restaurante natural
    cuja proposta
    é cada um come o eu gosta.
    Yolanda e Adelina
    bem mais unidas
    acham viver um barato
    e pra provar
    tão fazendo artesanato
    e pela amostra
    Yolanda aposta na resposta.
    E Adelina não discorda
    que pinta e borda com o que gosta.
    É positiva essa proposta
    de quatro: hum-hum... oquéi... tá bom... é...
    Só que Odilon
    ensopapa o Vanderley com ciúme
    e Adelina dá na cara de Yoyô...
    Vanderley e Odilon
    Yolanda e Adelina
    cada um faz o que gosta
    e o relacionamento... continua a mesma bosta!

  • Querido Diário

    Autores: João Bosco & Aldir Blanc

    Confesso, querido diário,
    essa mulher me convulsiona
    o ar de mártir no calvário
    dentro da bacanal romana.

    Garanto, querido diário,
    que atrás da leve hipocondria
    convive a hóstia de um sacrário
    com o fogo da ninfomania.
    (hum...)

    Hoje, acordei
    tomei café
    me masturbei
    comprei o jornal
    fiz a fé no bicho
    pichei o governo
    me senti quadrado
    fui ao analista
    cantei babalu
    mais fora de esquadro
    do que esquerdista
    no Grajaú.

    E o tempo todo, meu diário,
    pensava nela com amargura.
    O arquipélago das sardas
    nas costas nuas, que loucura!

    Constato, querido diário:
    muito pior do que esquecê-la
    é encontrá-la pelas ruas
    dizer: - olá, prazer em vê-la...

  • Abigail Caiu do Céu

    Autores: João Bosco & Aldir Blanc

    Abigail caiu do céu na pia de batizado
    da igreja de santo Antônio dos pobres
    pobre convidado do André que mesmo míope
    viu logo na Abigail,
    a encarnação de caliu, André ficou a mil
    o amor cortou de viés e no préstito dos anos
    Abigail dez e dez pôs os pés nos pêlianos
    André de sapato novo foi pro Banco do Brasil
    enriqueceu no over night esqueceu de Abigail
    dizem que o chôro tem que ter uma terceira
    como terceira existia na fró outra da cantareira
    ora pois então resuma o final dos dois amantes
    André foi pra dr Eiras
    Abigail pro Inamps

  • Viena Fica na 28 de Setembro

    Autores: João Bosco & Aldir Blanc

    Morre a luz da noite
    o porre acende pra me iluminar
    numa outra cena...
    Zune o vento e valsam os oitis
    no velho boulervard:
    bosques de Viena!
    Escrevo a carta a uma desconhecida
    com quem tive um flerte, um anjo azul...
    pobres balconistas de paquete, de ar infeliz
    são novas Bovarys...
    Já perdi o expresso do oriente
    onde sempre sou
    vítima e assassino...
    Tomo a carruagem e o cocheiro
    de tabela dois
    diz que é vascaíno...
    Ah, triste figura, Don Quixote
    quer mais um traçado
    - cadê o Sancho?
    Dá pro santo, bebe, e o passado
    volta a desfilar,
    pierô de marcha-rancho:
    ... com as bronca do Ary Barroso, sem elas...
    ... com a bossa do Ciro Monteiro, sem ela...
    ... com o copo cheio de Vinícius, sem ele...
    ... com nervos de aço Lupiscínio, sem eles...
    ... com as mãos do Antonio Maria, sem elas...
    ... com a voz do Lamartine Babo, sem ela...
    ... com a rosa Dolores Duran, sem ela...
    ... com a majestade da Elis, sem ela...

  • Coisa Feita

    Autores: João Bosco & Aldir Blanc

    Sou bem mulher
    de pegar macho pelo pé
    reencarnação
    da princesa do Daomé.
    Eu sou marfim
    lá das minas do Salomão,
    me esparramo em mim
    lua cheia sobre o carvão.
    Um mulherão,
    balangandãs, cerâmica e sisal,
    língua assim
    a conta certa entre a baunilha e o sal,
    fogão de lenha,
    garrafa de areia colorida,
    pedra-sabão,
    peneira e água boa de moringa.
    Sou de arrancar couro,
    de farejar ouro,
    Princesa o Daomé.
    Sou coisa feita,
    se o malandro se aconchegar
    vai morrer na esteira
    maré sonsa de Paquetá.
    Sou coisa benta,
    se provar do meu aluá
    bebe o Pólo Norte
    bem tirado do Samovar.
    Neguinho assim, ó!
    Já escreveu atrás do caminhão:
    "mulher que a gente não se esquece
    é lá do Daomé".
    Faço mandinga,
    fecho os caminhos com as cinzas,
    deixo biruta, lelé da cuca,
    zuretão, ranzinza...
    Pra não ficar bobo
    Melhor fugir logo,
    sou de pegar pelo pé.
    Sou avatar, Vodu,
    sou de botar fogo,
    Princesa do Daomé.

  • Siameses

    Autores: João Bosco & Aldir Blanc

    (ele)
    Amiga inseparável,
    rancores siameses
    nos unem pelo olhar.
    Infelizes pra sempre
    Em comunhão de males
    obrigação de amar.
    E amas em mim a cruel indiferença.
    Aspiro em ti a maldade e a doença.
    Vives grudada em mim,
    gerando a pedra
    em teu ventre de ostra
    e eu conservo o fulgor do nosso ódio
    estreitando a velha concha...
    Amiga inseparável,
    tu és meu acaso
    e por acaso eu sou tua sina,
    somos sorte e azar,
    tu és minha relíquia,
    seu sou tua ruína.
    (ela)
    Vivo grudada em ti,
    gerando a pedra
    em meu ventre de ostra.
    Conservas o fulgor do nosso ódio
    estreitando a velha concha...
    Amigo inseparável,
    eu sou teu acaso
    e por acaso tu és minha sina,
    somos sorte e azar,
    eu sou tua relíquia,
    tu és minha ruína.

  • Na Venda

    Autores: João Bosco & Aldir Blanc

    Eu fui na venda
    comprar pinga e pimentão
    pra fazer um xarope noventa
    que matasse a fome
    e limpasse o pulmão
    mas o caxeiro-cachorro!
    Tomou meu dinheiro,
    mandou que eu ficasse calado,
    maneiro,
    botou toda culpa na Dona Inflação.
    - Essa não, seu Leitão!

    Dei-lhe uma descompostura
    criei embaraço,
    os home arriaro a porta de aço
    e arrepiaro mais que porquispim...
    Tinha uma abertura nos fundo da venda,
    corri como um cão,
    passaro um jornal nos meus treco
    e o Leitão
    jogou o pacote por cima de mim.
    - quase foi o meu fim!

  • Galo, Grilo e Pavão

    Autores: João Bosco, Paulo Emílio & Aldir Blanc

    Galo, grilo e pavão,
    Todos três na batáia,
    Cada um com seu estilo.

    Galo vê bicho verde
    nas asas da gráia,
    o pavão diz: deu grilo!

    Grilo ri do pavão
    se empomba no arraia,
    galo faz continença.

    Galo grila o pavão
    e quer crendenciá
    dessa tar previdença.

    Galo, grilo e pavão:
    éta trio de arromba
    modi num dá vacilo.

    Se o pavão bodeá
    galo joga uma bomba;
    pega em riba de grilo.

    Grilo qué o qui pintá,
    galo, crocodilar.
    Pavão abre falença.

    Grilo é procuradó,
    Pavão manda mata,
    Galo cumpre a incumbença.

  • Comissão de Frente

    Autores: João Bosco & Aldir Blanc

    Os heróis eram quatro
    Os três dias são quatro
    É a hora do pato
    É a onda e o mato
    É o ato e o fato
    O Tancredo e o Pinto
    O Morcego e o Clóvis
    O Arcanjo e o Diabo
    Fralda cor de abacate
    Beijo no guardanapo
    É Zumbi no repique
    Grega dando chilique
    Índio de esparadrapo
    Marajós de Irajá
    Ícaros de Icaraí
    E sandália havaiana
    Chope, coxa e bagana
    Um palhaço na maca
    Legionários, miragens
    Sheik de pilantragem
    Frescuragem de paca
    O rei-Sol chama Zeca
    Tirolês de cueca
    E um rebanho de vaca.

    Quem fica aceso
    Enquanto toma ferro o tempo inteiro
    É dragão de açougueiro
    Só uma planta dá sardinha em lata
    Em plena beira de mar: é Coqueiro!
    Vem um pierrô de porre brabo
    E bota chifre, até que enfim, no arlequim
    Movida a álcool, bateria que merece
    Respeito e fé: mestre André!
    Melhor um general da banda
    Que outra banda de maiorais! Quás! Quás! Quás!

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