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João Bosco e o casamento do talento com a dignidade
Texto de Sérgio Cabral
Em dezembro de 1976, o Conselho de Música Popular do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro examinava as duas candidaturas favoritas a conquistar o Golfinho de Ouro de música popular, prêmio do governo do estado destinado aos mais importantes criadores do ano. Antes da votação, chegou ao Museu uma correspondência da dupla João Bosco-Aldir Blanc, que representava uma das candidaturas, com a seguinte mensagem:
"Sabedores de nossa indicação para o Prêmio Golfinho de Ouro de 1976, ao lado do compositor Cartola, vimos, por meio desta, expressar nossa firme opinião de que ninguém mais do que Cartola merece esse prêmio. Dizemos isso sem, em nenhum momento, subestimar nosso próprio trabalho em música popular, mas levados pela certeza de que o veterano compositor mangueirense espelha exemplarmente o mérito e a luta da música brasileira, que sobrevive, apesar das pressões sócio-político-econômicas que lhe são impostas. Dessa forma, propomos a indicação de Cartola, por unanimidade, ao prêmio."
Cartola ganhou o Golfinho de Ouro com os votos de todos os conselheiros. E ficou a lição de que tudo é melhor quando o talento anda com a dignidade.
A verdade, porém, é que a indicação da dupla para ganhar o prêmio era absolutamente correta. João Bosco empolgava o Brasil inteiro com as suas músicas feitas em parceria com Aldir Blanc e com o seu jeito muito pessoal de cantar, além de uma extraordinária habilidade para tocar violão. O impressionante é que o jovem artista com tanto êxito e tanto prestígio tinha uma carreira de apenas quatro anos.
Quatro anos como profissional, é preciso que se diga, já que João convivia com a música desde menino, na cidade mineira de Ponte Nova, onde nascera no dia 13 de julho de 1946. Sexto filho de pai seresteiro e mãe pianista e violinista, João Bosco de Freitas Mucci tinha também uma irmã pianista e cantora dos clubes da cidade. Como se tudo isso não bastasse, o padre Schmidt, do colégio salesiano em que estudou, adorava música. E havia a Rádio Nacional, que chegava a Ponte Nova através das ondas curtas com o seu fantástico elenco de cantores e músicos. João ainda não tinha 10 anos quando ocupou o microfone da rádio local imitando Caubi Peixoto, uma das maiores atrações da Nacional. O rock and roll chegou com a adolescência e ele passou a cantar com a garotada da cidade no conjunto X-Gare, mais tarde chamado de Os Charm Boys. Mas não deixava de ouvir as músicas de Vila-Lobos e Alberto Nepomuceno que a irmã cantava e/ou tocava no piano. Não deixava também de jogar as memoráveis peladas - os chamados times-contra - da turma da rua do Telefone, onde morava, contra os rivais da rua do Vai-e-volta.
Em 1962, transferiu-se para Ouro Preto a fim de concluir os estudos do curso secundário e ingressar na Escola de Engenharia. Iniciava, às vésperas de completar 16 anos de idade, uma experiência que o marcaria para a vida inteira. "Passei pela terra de Aleijadinho e o meu coração, que era até então vadio, ficou barroco", escreveu ele no Jornal do Brasil, em 1997. No início, morou na pensão de dona Anita, cujo filho passou a ser um dos seus melhores amigos. Depois, veio o período das repúblicas dos estudantes, começando pela Casablanca, que fundou com amigos, vindo depois a Virtuosa, na rua Costa Sena, perto da igreja do Carmo, onde vivia um tanto ou quanto assustado com os rumores de que, ventando muito, uma imensa árvore vizinha cairia sobre o prédio. Mal começava o vento, todos corriam para a república Sétimo Céu. Com cinco anos de Ouro Preto, instalou-se na Sinagoga, república instalada numa ladeira de pé-de-moleque, atrás da igreja das Mercês de baixo. O retrato com os formandos de 1973 permanece até hoje pendurado na parede da república Sinagoga. Formado, transferiu-se para o Rio de Janeiro, cidade muito presente na sua imaginação pelo que ouvia na Rádio Nacional, pelos filmes da Atlântida e pela bossa nova.
Em Ouro Preto, João Bosco andava com o violão para cima e para baixo quando estava no primeiro ano da Escola de Engenharia e praticamente trocou os estudos pela música e pela boemia. Tal comportamento tinha uma explicação. É que, sabendo que Vinicius de Moraes estava hospedado no Pouso do Chico Reis - onde sempre ficava quando ia a Ouro Preto -, o estudante de engenharia tratou de procurá-lo. Vinícius recebeu-o muito bem e pediu que ele tocasse uma das suas músicas. "Toca outra", disse animado o poeta. E João tocou três músicas, nascendo ali uma parceria que produziu, entre outras coisas, Samba do pouso, O mergulhador e Rosa dos ventos ("Deu a louca de repente/Nos meus pontos cardeais/Tem Teresa pela frente/Tem Amélia por detrás/A oeste tem Marília/A leste tem Conceição/E ainda tem a Rosa dos ventos/Pra aumentar a viração"). Samba do pouso seria gravado muitos anos depois, pelo próprio João Bosco e Os Cariocas, para o Songbook de Vinicius de Moraes. Para um jovem compositor interiorano, nada melhor do que o contato com um personagem como o saudoso Poetinha, mas o fato é que João faltou tanto às aulas que perdeu o ano por freqüência. "Só queria saber de música e dos conselhos de Vinícius", confessa João. De qualquer maneira, a partir da reprovação, resolveu dividir melhor o tempo entre os estudos e a boemia, sendo aprovado sempre, sem ficar uma vez sequer em segunda época. É verdade que não sacrificou nenhuma das atividades de que tanto gostava. Continuou freqüentando o cabaré da cidade, a jogar sinuca no salão do Frias ou no Lara, a jogar futebol em frente à igreja das Mercês, no campo do Barra, e, sobretudo, a tocar violão. Quem quisesse saber por onde andava João Bosco em Ouro Preto bastava perguntar a Geraldo Forte e a Mílton Cupriar, que também eram músicos e se formariam com ele em engenharia civil, ou ao pianista Marco Antônio Amaral, todos eles seus companheiros num conjunto que tocava cinco, seis horas seguidas nos bailes, quase sempre apenas em troca de bebida. Quando não tocavam, estavam ouvindo jazz ou uma boa música brasileira.
Graças à amizade com Vinicius de Moraes e com o pintor Carlos Scliar (apresentado a ele pelo poeta), que bancavam suas viagens ao Rio de Janeiro, João passou a freqüentar a cidade no período de férias escolares. Quando visitou o Rio pela primeira vez, em 1966, ficou deslumbrado com o caminho tomado pelo táxi, da Rodoviária ao Leblon, passando pelo Parque do Flamengo e pelas praias de Copacabana, Ipanema e Leblon. Mas foi na tela da televisão, assistindo a uma das etapas do Festival Universitário de Música de 1969, que João Bosco tomou conhecimento não só da existência de Aldir Blanc, um dos concorrentes, como do seu imenso talento como letrista. Visitando o Rio em 1970, foi apresentado a Aldir e ambos trataram de firmar uma parceria que, inicialmente, enfrentou o problema da distância, pois João teve de voltar para Ouro Preto, enquanto Aldir permanecia no Rio. As primeiras músicas da dupla - Bala com bala, Agnus sei e O condenado - nasceram na base do envio de fitas gravadas de um para o outro. Em 1971, a estréia em disco, uma consagração: Elis Regina cantou Bala com bala no seu disco Ela. O fato é que quem tomava conhecimento das músicas da dupla ficava encantado. Um exemplo de tal encantamento foi a dica publicada no início de abril de 1972, no Pasquim:
"Se alguém acredita no que escrevo nestes mais de dez anos de comentarista de música popular, ponho minha reputação em jogo para dizer o seguinte: nada, rigorosamente nada, é mais importante atualmente na música popular brasileira, em matéria de coisa nova, do que a dupla João Bosco-Aldir Blanc. Desde a geração de Egberto Gismonti-Mílton Nascimento, nada de tão importante surgiu em nossa música. Ouvi uma fita com algumas músicas dos dois e aposto, quanto vocês quiserem, que a música de João Bosco e a letra de Aldir Blanc superam qualquer coisa que outros novos [Aldir não tão novo] estejam fazendo no momento.
Leitor, só quero o seu testemunho: fui o primeiro a fazer uma dica sobre essa dupla. (Sérgio Cabral)."
Conhecendo João Bosco antes do grande público, o pessoal da música popular não escondia o entusiasmo pelas suas músicas e pela sua capacidade de violonista. O compositor e cantor Sérgio Ricardo, um dos mais entusiasmados, decidiu convidá-lo para inaugurar um projeto que iria executar, naquele mesmo ano de 1972, com o Pasquim e que consistia no lançamento, nas bancas de jornal, de um compacto simples apresentando, de um lado, um nome famoso da nossa música e, do outro, um artista em início de carreira. Era o Disco de Bolso, um belo projeto que, infelizmente, não passou de dois lançamentos (o segundo apresentou um disco com Caetano Veloso (o nome famoso) de um lado e Fagner (o iniciante) do outro. O nome famoso escolhido para inaugurar o Disco de Bolso não poderia ter sido outro: Antônio Carlos Jobim, o grande nome da MPB e amigo da patota do Pasquim. Graças a essa amizade, coube ao Disco de Bolso o privilégio de promover o lançamento de um dos maiores sucessos mundiais de Tom, Águas de março, na interpretação dele mesmo. Do outro lado do disco, João Bosco estreava cantando Agnus sei.
O jovem compositor, cantor e violonista de Ponte Nova estava condenado ao êxito. No ano seguinte, a RCA Victor o convidou para gravar o seu primeiro long-play. Ano muito importante para João Bosco, foi em março de 1973 que ele colou grau na Escola de Engenharia de Ouro Preto e, em setembro, era lançado o seu primeiro LP, uma preciosidade que, infelizmente, não repercutiu muito. Tinha o título de João Bosco e na capa, um retrato do artista pintado por ninguém menos do que Carlos Scliar. No disco, além de cantar, João tocou violão e gravou Bala com bala.
Os discos continuariam saindo, mas, mesmo antes do lançamento, a dupla de compositores se rendia à honra de ver suas músicas gravadas por Elis Regina. Tanto assim que, em 1974, Elis gravou O mestre-sala dos mares, Dois pra lá, dois pra cá e Caça à raposa, músicas incluídas no LP Caça à raposa (RCA Victor), de João Bosco, lançado em 1975. Com um belo desenho de Glauco Rodrigues na capa, o segundo LP de João Bosco estava recheado de sucessos, entre eles, De frente pro crime e Kid Cavaquinho, este gravado anteriormente por Maria Alcina.
Apesar do sucesso, João Bosco e Aldir Blanc começavam a perceber que, ao lado do prazer de compor, cantar e tocar músicas, o mundo da música popular proporcionava também vários motivos de indignação. Como se não bastasse a censura a causar estragos terríveis nas obras dos criadores (houve muitos cortes em O mestre-sala dos mares. O "navegante negro" era, na realidade, o "almirante negro", título pelo qual ficou conhecido o líder da Revolta da Chibata na marinha brasileira), os compositores ainda tinham de enfrentar um sistema superado, injusto e, muitas vezes, corrupto na distribuição dos direitos autorais. O primeiro alvo da indignação da dupla foi a própria sociedade arrecadadora a que pertencia, a Sociedade Independente de Compositores e Autores Musicais (SICAM). Mas esta, como todas as outras, era protegida por um estatuto draconiano, pelo qual seria expulso quem a criticasse publicamente. Resultado: João e Aldir, além de Sueli Costa, Macalé, Vitor Martins e Gutemberg Guarabira, foram expulsos da sociedade em fins de 1974. Foi uma decisão que deixou tão mal a SICAM diante da opinião pública que, dias depois, uma assembléia dos associados determinou a revogação do ato da diretoria. De qualquer maneira, era o início de uma luta contra o sistema em vigor e que terminaria vitoriosa, apesar do ceticismo de muitos, que classificavam os jovens compositores de "quixotescos" e o grupo de "exército de Brancaleone". Com a participação de nomes como os de Antônio Carlos Jobim, Chico Buarque de Holanda, Sérgio Ricardo, Luís Gonzaga Jr., Hermínio Belo de Carvalho e muitos outros, eles se organizaram no que chamaram de Sombras e pressionaram o ministro da Educação Nei Braga a adotar medidas efetivas contra o antigo sistema de arrecadação e distribuição de direitos autorais. O ministro criou o Conselho Nacional de Direito Autoral e, poucos depois, o Escritório Central de Arrecadação de Direitos, o ECAD. Com essas medidas, os compositores não atingiram a perfeição, mas, sem dúvida, passaram a conviver com um sistema mais limpo e mais eficiente.
Em 1976, João Bosco inaugurou um dos mais bem-sucedidos projetos de divulgação musical já realizados no país: o Seis & Meia, no Teatro João Caetano. O projeto, idealizado e executado por Albino Pinheiro (o mesmo que fundou e comandou por mais de trinta anos a Banda de Ipanema), pretendia proporcionar aos cariocas que trabalhavam no Centro da cidade uma alternativa ao transporte difícil e aos engarrafamentos de trânsito tão freqüentes no fim de tarde. O Seis & Meia ofereceria sempre boa música com o preço do ingresso muito abaixo do que era cobrado nas casas de espetáculo. Para alegria de João Bosco, Albino Pinheiro designou como sua parceira de palco ninguém menos do que Clementina de Jesus, a cantora que o encantava pela voz fantástica e por um repertório que o remetia às mais belas e profundas tradições mineiras. "Bem que eu devia ter desconfiado de que aquelas congadas e folias me trariam até Clementina de Jesus", disse ele numa das muitas entrevistas concedidas na época.
O ano de 1976 também foi marcante pelo lançamento do disco Galos de briga, novamente com uma capa desenhada por Glauco Rodrigues e apresentando sucessos como Incompatibilidade de gênios, Gol anulado, O ronco da cuíca, Latin lover e Transversal do tempo. O LP teve participações ilustres, como a da grande cantora Ângela Maria e do genial gaitista Toots Thielemans, amigo de outro magnífico gaitista, Rildo Hora, o produtor dos discos de João Bosco na RCA Victor. Como já vimos, João e Aldir abriram mão, no fim do ano, do Golfinho de Ouro, em benefício de Cartola. Mas do prêmio da Associação Brasileira dos Produtores de Disco não tiveram como fugir e foram contemplados com o troféu de Compositores do Ano. Prêmios de um lado, censura do outro: logo depois do lançamento do disco, tomaram conhecimento de que O ronco da cuíca teve a divulgação proibida nas emissoras de rádio e TV e que não poderia ser cantada nas apresentações públicas.
Em Tiro de misericórdia, o LP de 1977, João Bosco passou por uma experiência parecida com a do Ronco da cuíca: a RCA retirou do encarte que acompanhava o disco, criado pelo artista gráfico Melo Menezes, uma história em quadrinhos do cartunista Reinaldo (da equipe do Pasquim e que mais tarde ficaria famoso em todo o Brasil como um dos integrantes do grupo de humoristas do "Casseta e Planeta"). A história de Reinaldo, intitulada "O compositor brasileiro", abordava as dificuldades enfrentadas pelos autores de música para receber os direitos autorais. Em entrevista aos jornais, protestando contra a decisão da gravadora, Aldir Blanc acusou a RCA de ter "vestido a carapuça".
Apesar do incidente, o contrato de João Bosco com a RCA foi mantido e ele gravou mais dois LPs na gravadora: em 1979, Linha de passe, com o lançamento de mais um parceiro na autoria das músicas, o saudoso poeta e compositor Paulo Emílio Costa Leite; em 1980, saiu Bandalhismo; e, em 1981, Essa é a sua vida, o último disco na RCA. Em 1982, foi lançado o único disco de João Bosco na Ariola, gravadora que teve uma rápida e barulhenta passagem pelo Brasil. O disco, o último da parceria com Aldir Blanc, recebeu o nome de Comissão de frente (capa de Glauco Rodrigues), o mesmo nome do show que João fez sozinho (apenas ele e o violão) e que lotou os teatros de várias cidades. Dedicado a Dorival Caymmi, Silas de Oliveira, João Gilberto e Ary Barroso, o show mereceu uma gravação ao vivo em sua centésima apresentação no Tuca de São Paulo, em 1983, que marcou a carreira de João Bosco como o seu maior êxito em matéria de venda de discos. Foi lançado pela Barclay, a gravadora que registrou, no mesmo ano, a sua primeira apresentação internacional, no 17o Festival de Montreux, que contou ainda com a participação dos brasileiros Nei Matogrosso e Caetano Veloso.
Naquela altura, João era um dos artistas brasileiros mais procurados para cantar não só por todas as regiões do Brasil como também no estrangeiro. Em 1984, quando lançou o LP Gagabirô, conquistou o prêmio pela melhor música do festival da Yamaha, em Tóquio, com a composição Preta-porter de tafetá. Viajava tanto que, em 1985, observou que só não havia cantado ainda em três capitais brasileiras: Manaus, Belém e Maceió. Em 1986, lançou o LP Cabeça de nego; em 1987, Ai, ai, ai de mim; e, em 1988, participou do disco Festival, do guitarrista Lee Ritenour. Compareceu novamente ao Festival de Montreux em 1989, mesmo ano em que lançou o disco Bosco e fez temporadas no Rio de Janeiro (Canecão) e em São Paulo (Olímpia). Em 1991 foi a vez do disco Zona de fronteira e, em 1992, de novas apresentações no Canecão e no Olímpia e do MTV Acústico. Já em 1993, foi vítima de uma ocorrência nada musical: durante uma viagem turística a San Francisco, na Califórnia, em companhia da mulher, a escultora Ângela Bosco, um impostor apareceu no hotel em que estava hospedado, apresentando-se como João Bosco e que perdera a chave do cofre. Recebeu uma chave do funcionário da recepção do hotel e apoderou-se de 12 mil dólares do verdadeiro João Bosco, além de cheques de viagem. O jeito foi, como sempre, dar duro no trabalho. Na volta, realizou uma temporada no Gallery, em São Paulo. E não parava de trabalhar. Trabalhava e viajava tanto que, por falta de tempo, as banheiras dos hotéis passaram a ser o seu local predileto para compor.
A influência da música negra era cada vez mais forte tanto nas novas composições quanto no estilo que criara para cantá-las. Impressionado com tal tendência, o crítico Maurício Kubrusly observou que acontecia com ele o inverso do fenômeno que se observava em Michael Jackson, um negro que embranqueceu com o tempo: João era branco, foi escurecendo e "virou negão". Em 1994, lançou o disco Na onda que balança e cantou no Canecão (Rio de Janeiro) e no Palace (São Paulo). No ano seguinte, surpreendeu o público com um CD - Dá licença, meu senhor - com músicas de autores como Heitor Villa-Lobos, Noel Rosa e Ary Barroso. Pouco depois, apresentou-se em Lisboa acompanhado do percussionista Paulinho da Costa, do pianista César Camargo Mariano (arranjador de vários dos seus discos), do saxofonista Paulo Moura e de John Patitucci, ex-baixista de Chick Corea. Em outubro e novembro percorreu a Europa, o que se repetiria em 1996, quando cantou no festival de Bordeaux e comemorou os seus 50 anos de vida, no dia 13 de julho, durante uma excursão que incluiu não só a Europa como o Japão e os Estados Unidos. Mal voltou ao seu país, deu início a uma temporada no Tom Brasil, em São Paulo.
Depois de compor com vários letristas - entre eles, José Carlos Capinam, Antônio Cícero e Waly Salomão -, João Bosco lançou em 1997 um novo letrista no seu disco As mil e uma aldeias, o filho e poeta Francisco Bosco, que, pouco depois do CD chegar às lojas, lançava o seu segundo livro de poesias, Atrás da porta. Numa entrevista, João falou da experiência de fazer música com o próprio filho: "Temos enfoques diferentes sobre determinados aspectos. Discutimos bastante, mas sempre chegamos a um consenso. Tenho 50 anos e ele, 20, mas parece que é o inverso, porque ele tem uma visão muito clara do meu modo de ver a música, muito madura." Na mesma entrevista, justificou a presença no disco de elementos da música árabe, não fosse ele descendente de árabes. "Mudo cada vez mais para ser eu mesmo."
Outra novidade em sua carreira surgiu em 1998, quando foi convidado a compor a música para a companhia mineira de dança Grupo Corpo. Na elaboração da música, João trabalhou com o diretor do grupo, Paulo Pederneira, e o coreógrafo, Rodrigo Pederneiras. Em sua estréia como compositor de música para dança, fez uma espécie de mistura da música árabe com Pixinguinha, candomblé e elementos do folclore mineiro. Foi um sucesso. O Grupo Corpo apresentou-se no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e exibiu-se, em seguida, em vários países. A trilha do espetáculo foi registrada no CD Benguelê. Mas João Bosco não ficou apenas nisso em 1998: apresentou-se em março no Canecão (Rio); em agosto, no Sesc-Pompéia (São Paulo); e, em setembro, no Teatro João Caetano (novamente no Rio de Janeiro).
Cumpriu nova temporada em março de 1999 no Teatro Rival e, em abril, fez o show inaugural de um empreendimento que seria a primeira homenagem prestada a ele pelo poder público: a Lona Cultural João Bosco, instalada pela Prefeitura do Rio de Janeiro no bairro de Vista Alegre. Em agosto, pouco depois do lançamento do terceiro livro do filho Francisco, Invisível rutilante, João Bosco foi contemplado com a capa e uma reportagem de 10 páginas de uma das mais importantes publicações especializadas em música de todo o mundo, a revista japonesa Latina. No CD Na esquina, lançado em 2000, pai e filho assinaram nove composições. As demais faixas foram ocupadas por três versões de músicas estrangeiras. Ainda em 2000, João apresentou-se em vários países europeus, além de cantar no Tom Brasil e no Canecão. Na esquina foi o título do show com que se apresentou em várias cidades, sendo que, em Juiz de Fora, o show foi gravado ao vivo e resultou no lançamento de um CD em dois volumes, lançado em 2001, ano, aliás, em que recebeu uma das mais emocionantes homenagens: a partir de junho daquele ano, quem quiser dançar na Gafieira Estudantina terá de subir a Escadaria Cantor e Compositor João Bosco.
P.S. - A nossa história começou com um episódio que casava o talento com a dignidade. De fato, são virtudes fundamentais para os profissionais de todas as áreas, mas se, além delas, houver um pouco de sorte, a história segue melhor. É que, nos anos 70, João Bosco e Paulinho da Viola jogaram como parceiros na Loteria Esportiva (então a maior loteria do Brasil) e ganharam sozinhos o primeiro prêmio. Uma fortuna suficiente para cada um deles comprar a casa em que mora.
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