Boca Cheia de Frutas 2024
FAIXAS
1 - Dandara
2 - Vir-a-Ser
3 - O Canto de Terra Por Um Fio
4 - E Aí?
5 - Dias Que São Assim
6 - Dinossauros de Candelária
7 - Buraco
8 - Sobretom
9 - Samba Sonhado
10 - Gurufim
11 - O Cio de Terra
RELEASE
João Bosco em solo fértil
Artista lança “Boca cheia de frutas”, álbum de inéditas que pensa a vida e o Brasil projetando um futuro de abundância, a despeito das dores. Disco traz homenagens a Tom Jobim e Aldir Blanc, além de releitura de ‘O cio da Terra’, de Milton Nascimento e Chico Buarque
Leonardo Lichote
BOCA
Sobre sons de crianças, de pássaros, de vozes que parecem vir de florestas ancestrais das Américas e da África, João Bosco entoa repetidas vezes o canto yanomami: “waruku waruku waruku këëi moramakī waruku waruku waruku këëi” (“boca cheia, boca cheia, boca cheia, boca cheia de frutas, boca cheia, boca cheia”). São os últimos instantes de “Boca cheia de frutas”, disco de canções inéditas que o artista lança pela Som Livre no dia 10 de maio.
Portanto, na sinfonia que entrelaça a terra e o humano, João amarra no último ato de seu álbum o sentido exposto no título: “Boca cheia de frutas”. O anúncio da fartura de cores e sabores, do que nasce do solo tornado alimento, do fim da fome e das fomes todas. Metáfora de futuro auspicioso, vindo não por acaso em língua indígena, num momento em que fica cada vez mais evidente que é dos povos originários que virá o adiamento do fim do mundo. A sabedoria de ver o futuro que a origem guarda. Sabedoria que o compositor desde sempre destila nas cordas de sua garganta e de seu violão.
Sua voz e seu instrumento, sábias de tempo na plenitude de seus 77 anos, são frutas que se apresentam na enorme boca do álbum. Assim como são frutas os legados de Aldir Blanc e Tom Jobim celebrados ali. Os orixás invocados. Os dinossauros do samba. O renascer após a ruína da alma. João Gilberto, fruto do Juazeiro. O bilhete de amor que podia ser pra você. A descrição da magia vulgar e da vulgaridade mágica do nascimento de uma canção. O cio da terra, eterno.
“Boca cheia de frutas” é, assim, um disco sobre o Brasil. O país da distopia de “O canto da Terra por um fio”, de rios asfixiados, da mata que arde. O país que se revela nos versos de “Buraco”, inspirados na história real do indígena que viveu isolado, morreu num buraco e “ao não se mostrar/ mostrou o Brasil”. O país da ausência, do vão. A boca sem nada, enfim — essa mesma que se projeta aqui cheia de frutas, boca farta que também é o Brasil. O país opulento que, no álbum e na mente do artista, se sobrepõe àquele outro, oco. No sonho de João, o vazio é berço da abundância.
FRUTAS
“Boca cheia de frutas” traz 11 faixas. Dez são composições inéditas de João: uma instrumental, que ele assina sozinho; sete escritas com Francisco Bosco, que é responsável com João, seu pai, pela concepção do álbum; uma parceria com Roque Ferreira; uma com Aldir, a partir de uma letra deixada pelo amigo; e uma releitura de “O cio da Terra”, clássico de Milton Nascimento e Chico Buarque.
“Dandara”, parceria de João e Roque Ferreira, abre o disco com o grave das percussões de Armando Marçal e Zero e do baixo de Guto Wirtti, como se brotando do profundo da terra. O violão do compositor e o piano de Cristóvão Bastos entram em seguida, adensando o ar e preparando para a chegada do canto sem palavras, fonemas de línguas de uma ancestralidade intuída, marca do artista ao longo de sua carreira. Canto que no disco aparece em muitos momentos, sempre com enorme expressividade, instaurando atmosferas.
“As vozes, muitas vezes, com seus fonemas, suas inflexões, elas te direcionam para um lugar. Um lugar onde a música vai acontecer”, reflete João. “Como num livro você tem um prefácio, como na vida você tem anúncios, elas funcionam assim”. O cantor mapeia suas referências: “Quando escuto grupos indígenas ou de países da África cantando, me emociono muito com os intervalos das notas. Aquilo te diz tanto sobre você e o seu passado, que você usa pra criar o seu futuro. É uma grande linha que se fecha”.
O lugar ao qual somos direcionados em “Dandara” é — como exposto nos versos de Roque Ferreira e na voz de João — “roça de Xangô de Obá Biyi”, espaço onde o narrador afirma: “canto Caymmi pra ninar”. Chão de João, enfim.
Em “Vir-a-ser”, de João e Francisco, o violão do artista, ao lado do baixo de Guto, da bateria de Kiko Freitas e do piano de Cristóvão refletem o caráter etéreo do tema: a canção que está para nascer, “uma esfinge de antemão”. Ecoando o título do álbum, a letra menciona “a grande boca” da canção que é ainda folha em branco, a boca que “nada confessa” ao compositor mas “nada esconde de ninguém”.
O processo de feitura de “Vir-a-ser” ilumina um tanto seu próprio assunto. Quando mandou a melodia para Francisco escrever os versos, João cantarolava no início “Poema dos olhos da amada”, poema de Vinicius de Moraes musicado por Paulo Soledade (“Ó, minha amada, que olhos os teus”). O primeiro verso de “Vir-a-ser” denuncia a referência: “Olhe nos olhos da canção”.
“Aquilo me lançou para uma tradição poética, que é aquela tradição viniciana, esse registro que fica na fronteira entre a tradição da letra da canção e a tradição da poesia brasileira”, conta Francisco. “O Vinicius é justamente a primeira pessoa a fazer essa dobradiça, entre a poesia e a canção. Então eu fui exatamente habitar essa dobradiça aí também. Ela é uma canção literária, com uma melodia que suporta esse peso”.
Lançada como primeiro single do disco, “O canto da Terra por um fio” é também parceria de João e Francisco. O canto isolado de uma arara anuncia a distopia da floresta destruída. Pela primeira vez no disco, aparece o verso da canção yanomami que imagina a boca cheia de frutas — manifesta naquele cenário de destruição como desejo-lamento, longínquo.
A letra evoca a cosmogonia yanomami — a relação umbilical entre humanidade e natureza, o sonho como lugar de comunicação com os ancestrais. Sobre esses versos, o canto de João é acompanhado apenas por seu violão e pelo violoncelo de Jaques Morelenbaum, num arranjo contundente e comovente em seu minimalismo. O arco sobre as cordas ecoando na madeira como que emula pelo avesso a serra que violenta o tronco.
João define a canção como “afro-indígena”: “Tem a pegada rítmica/harmônica afro e uma melodia que remete ao canto da floresta, ao campo, aos bichos, ao chão da terra e àqueles que a habitam”. Não é a primeira vez que João trafega nesse universo. “João do Pulo”, parceria sua com Aldir lançada em 1978, se refere ao personagem como “de sangue afro-tupi”. “É um caminhar na mesma linha, mas com um novo passo”.
“A questão indígena é fundamental para o mundo atual, e ela entra nesse disco como um traço da experiência contemporânea”, avalia Francisco. “É um disco de um artista que já tem uma história inteira por trás, mas que está vivendo o hoje, quer dialogar com o hoje”.
“E aí?”, parceria inédita de João e Aldir Blanc, é uma canção sobre desencontro, a partir de situações banais — o cumprimento não respondido, a visita que não chega. A história por trás da música é em si um desencontro. Lançado em 2013, a biografia “Aldir Blanc: Resposta ao tempo”, de Luiz Fernando Vianna, reunia as letras do artista até então. “E aí?” está lá, como sendo uma parceria João & Aldir. João, porém, não se lembrava de ter visto a letra antes.
“Acho que Aldir pensou que me mandou mas não mandou”, tenta entender o compositor. Ele decidiu, então, “corrigir” o desencontro e escreveu a melodia que ouvimos no disco. Guto, Kiko e Cristóvão conduzem com João o samba-bossa sereno. No início, um assovio guarda uma essência que sintetiza a beleza da amizade da dupla. “Penso na falta que me faz o Aldir. A sua não presença está na canção. O que é aquele assovio? Eu assovio como em ‘Vida noturna’, como em ‘Me dá a penúltima’, canções que ele adorava”.
Outro detalhe tocante do arranjo: o solo de piano cita “Tive sim”, de Cartola. João explica:
“Pedi isso para Cristóvão porque quando conheci Aldir, era uma das músicas que ele gostava que eu o acompanhasse. Toda festinha de violão que a gente ia, quando ele dizia pra mim “dó maior”, eu já sabia que era ‘Tive sim’. Então tudo nessa canção foi feito pra ele”.
“Dias que são assim”, de João e Francisco, captura aqueles momentos em que “um bicho espalha o lixo de nosso coração”. O instante em que a alma se quebra. A leveza flutuante da valsa-fox conduzida por João, Guto, Kiko e Cristóvão — e reforçada pelas cordas — contrasta com essa catástrofe existencial, mas ao mesmo tempo aponta para o renascimento do verso final: “Piso o carvão, recomeço a ser”.
Com produção musical de João e arranjos de base e de cordas assinados por Cristóvão — com exceção de “O canto da Terra por um fio”, no qual o arranjo é de Morelenbaum —, o álbum tem uma sonoridade que orbita naturalmente em torno do violão do compositor. João conta que batem em “Boca cheia de frutas” as ondas de um disco que vem ocupando sua mente e coração há décadas, desde que o ouvia em sua vitrola na juventude em Ouro Preto, mas que cresceu dentro dele mais especialmente nos últimos anos: “The composer of ‘Desafinado’ plays”, primeiro de Tom Jobim, de 1963.
Discografia
Entre memórias, caminhos e canções, sigo sendo aquilo que o tempo e o coração inventam.
Entre memórias, caminhos e canções, sigo sendo aquilo que o tempo e o coração inventam.
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