“Abricó-de-Macaco” por Francisco Bosco

Por Francisco Bosco

É uma árvore originária da Amazônia, mas tem a exuberância complexa da nação, ou melhor, da ideia de nação que aqui se afirma: no seu tronco, florescem e se conciliam Nanã Buruquê, Oxum, Jesus e um sambalelê nas escadas da Sé; todos os choros no samba-enredo de terna e linda melodia que é “Chora, chorões” (sutilmente reinventado de cabo a rabo pela interpretação de João Bosco); lógica de grupo e galho da roseira; um Tom Jobim agulhado, como se fosse Baden; Jurupari e dona Zezé, a muié que topa a parada de saia amarrada; Paulinho da Viola evocado num afrobeat entrançado pelo sopro de uma israelense; o ingênuo acalanto de Hammerstein e Rodgers, já revirado por Coltrane, agora africanizado de vez; e muito mais. Em suma, o sumo infinito desse Brasil brasileiro, sua vocação perseverante para realizar em si o verso do poeta (de resto, filho de sírio com sertaneja): entre meu ser e o ser alheio, a linha de fronteira se rompeu.

Entre memórias, caminhos e canções, sigo sendo aquilo que o tempo e o coração inventam.

Entre memórias, caminhos e canções, sigo sendo aquilo que o tempo e o coração inventam.