Release Na Esquina - Ivo Lucchesi

Os Bosco na esquina musical da brasilidade

Esquina, bem se sabe, é ponto de encontro. Nela se contam histórias e se esboçam projetos. Para ela convergem memórias e expectativas. Portanto, na esquina, passado e presente se fundem em parceria com o aceno que vem do futuro. Talvez, por essa imagem, melhor se compreenda a proposta formulada no novo trabalho que, a exemplo de Mil e uma aldeias, reedita (e consolida) a parceria entre João Bosco e Francisco Bosco. Doze faixas (nove autorais e três releituras) dão formato final a Na esquina. Numerologia à parte, lembramos que 12 e 9 são, respectivamente, números que evocam a totalidade de ciclos temporais: o tempo de doze meses da Terra; a duração de nove meses para a gestação de um ser. O conceito, pois, que parece estar na origem do recente CD não esconde o propósito de trazer em si o olhar de uma vida que passa em revista a história de um tempo musical no qual referências se mostram reverências de gratidão de alguém que, ao chegar à vida, encontrou um legado tanto nas raízes brasileiras quanto naquelas que as circundam.

As três composições estrangeiras Fools Rush In (Passos de Amador), Siboney e True Love (Amar, Amar) não têm seu relevo maior pela originalidade (embora ela se faça presente) que lhes tenha destinado a interpretação. Não, elas valem mais como citações que costuram a história do tempo musical, seja no mundo, seja no Brasil. Assim, nomes como Johnny Mercer, Lecuona e Cole Porter recebem de João Bosco a saudação pela importância de suas contribuições aos destinos da música popular. Nessas três referências também estão contempladas as Américas às quais, como brasileiros, pertencemos. A partir daí, uma história em dois planos é contada: 1) a história da música; 2) a história de uma vida entregue à música. O ponto de encontro para esses enredos é a esquina que efetivamente inaugura a pesquisa autoral na segunda faixa, cujas palavras iniciais revelam que “eu fiquei (…)/ eu fiquei lá (…)/ e ainda tô/…/”. Um ser se sentiu encantado na esquina da música e dos ritmos, com os quais nascia a identidade de João Bosco. Nessa rememoração vem um canto que não esconde a homenagem à raiz popular de Clementina de Jesus.

O enredo do CD vai deslizando para a construção de um mosaico, abrindo espaços para múltiplas inclusões. Uma delas é dirigida à palavra (Mama Palavra), cujas iniciais M e P também remetem à Música Popular. Se Clementina pode ser ouvida na faixa anterior, o mesmo se estende em Mama Palavra, numa quase explícita homenagem, a referências vocálicas de Gilberto Gil (de quem, a propósito, João se declarou seu “irmão mais novo”. Nessa composição, para a qual também concorre a competência do arranjador Jacques Morelembaun, fundem-se variações de momentos orquestrais com o reggae, sob o suporte expressivo de uma letra a atestar a maturidade poética de Francisco Bosco. O samba, com o mais contagiante e genuíno têmpero rítmico, comparece em Doce Sereia. A ele, João Bosco dedica a confissão de um encanto especial.

Prosseguindo na história de uma vida musical, os anos oitenta são lembrados na atmosfera meio bolerizada de Castigado Coração e Flor de Ingazeira, entremeados pela voz emprestada à malandragem da periferia no samba-rap Ditodos.

Quando se imagina que o painel do mosaico rítmico-musical estava contemplado, eis que irrompe a criação — talvez a mais vigorosa do CD — Beirando a Rumba. O que seria nada além de uma porta aberta para o Caribe, na verdade se revela uma requintadíssima composição de perfil autenticamente antropofágico. Trata-se de algo que, no âmbito da música popular mundial, apenas o Brasil, pela sua mistura cultural, sabe realizar.

Beirando a Rumba resulta de perfeita harmonia entre a construção musical e a sonoridade das palavras, reportando-nos a um tempo-espaço mítico no qual se inscreve o nascimento da brasilidade, a partir do recorte de um olhar que não o teve (nem o poderia ter) Pero Vaz de Caminha, na carta de fundação: “Grande cambará-preto / sabor de sarrabulho soou / no gogó /…/”. Como alerta o verso: “Na boca a pororoca explodiu”. Da revolução resultante do encontro das águas (ou, no caso, das culturas), nasce a beleza plural de um povo cujo perfil está condensado no refrão (“Ê ê ê ê ê / Aiaô aiaô aiaô aiaô /…/”). Há no refrão um dos mais ricos jogos de referências. O ritmo e a sonoridade vocal entoam, simultaneamente, um canto tribal, indígena que se soma ao mote inicial da famosa composição Karavan, inserida por João Bosco na trilha sonora Benguelê, composta para o Grupo Corpo (1999). Sem dúvida, a força desse refrão se intensifica quando se reconhecem nele as referências que o geram. Acresça-se a esse aspecto o condimento experimental por conta do arranjo, bem como do texto falado, ambos a insinuarem tanto a história vivida pelo Brasil quanto a inventividade capaz de tornar o país sempre uma promessa de redenção.

A nona faixa Siboney entra no enredo para pontuar outro cruzamento entre a latinidade e a influência da cultura árabe da qual os Bosco são herdeiros. Nesse enredo que conta a história de uma vida não poderiam faltar evocações épico- líricas de cenas de outrora, típicas de uma ambiência interiorana, tão familiares à infância de João. Essa é a moldura para o quadro musical de Cego Julião.

Todavia, temos de lembrar que a esquina é também ponto convergente do agora. Em seu nome, sob os auspícios da parceria com a palavra do jovem poeta, afirma- se o presente com o vigor de um otimismo que ajuda a continuar: Dia de Festa.

Apesar de todas as dificuldades que atravessam o país desde sempre, algo mantém seu povo em movimento: “Sol, porta-voz da manhã /…/”. O signo da alegria é parte dessa história. Seja como for, o Brasil é banhado pela solaridade. Com ela, ele prossegue…

A última faixa de Na esquina é dedicada a Amar, amar, uma versão de True Love. Uma vez mais comparece o registro de João Bosco que, ao longo da carreira, jamais desprezou citações emanadas de sua memória musical.

Na sua vasta discografia, estão referências que vão do erudito ao popular.

Ora esse recurso se inclina para a beleza do tanto que a música brasileira contém (Villa-Lobos / Ary Barroso, entre outros), ora seu olhar se fixa em outras culturas (Debussy / Cole Porter). É a subjetividade de João Bosco que, na solidão criadora de repetidas noites, entra em contato profundo com seu violão e daí a memória extrai singelezas.

Releituras, portanto, não são, na sua obra, ditadas por demandas de mercado. São, simplesmente, imposições estéticas que tomam conta de um ser. É nessa perspectiva que Strawinski e Tom Jobim (como em recriações anteriores) entram num diálogo familiar. É só isso. Na emoção de João Bosco, há lugar para todos. Afinal, João Bosco é parte da alma brasílica, ou seja, o uno e o múltiplo se irmanam em favor do pleno. Amar, amar é apenas mais uma dessas muitas rememorações, agora compartilhadas com o suporte poético que vem dos versos de Francisco Bosco.

Amar, amar , com a primeira faixa Passos de amador, fecha, circularmente, Na esquina. Da primeira à última, está o amor de quem caminha pelo mundo da (com e pela) música. Em Amar, amar, o tom intensamente lírico, sob a tutela de um arranjo de impecável suavidade, serve a um ato de fé que João destina para saudar seu encontro com a música: “Juntos, nós dois / a sós no jardim do amor / Noite /calma no céu/ só agora entendi / a razão de ser / de estar aqui / Amar, amar/ por você sofrer / por você sorrir /…/”. Aí está, de modo singelo, um profundo agradecimento por tudo que da música veio. Com ela, os milhares de aplausos pelas centenas de palcos. Com ela, também as dores que forçaram separações, adiaram afetos, tudo por conta de tantas viagens pela vida. Encontros e desencontros, tudo reunido, tudo relembrado numa esquina na qual, agora, o ser se pergunta: “Para onde devo ir?”

Ivo Lucchesi

Entre memórias, caminhos e canções, sigo sendo aquilo que o tempo e o coração inventam.

Entre memórias, caminhos e canções, sigo sendo aquilo que o tempo e o coração inventam.