Senhoras do Amazonas – João Bosco & NDR BigBand
Depois que o último acorde majestoso de “Senhoras do Amazonas” se dissipou no estúdio, João colocou sua guitarra de lado, riu e deixou escapar: “Nem acredito!” Esse momento resume toda a história deste CD. E eu vou concordar com João. Em 2007, quando pedimos a ele para fazer uma turnê pelo Brasil com a NDR Bigband, nunca pensamos que três anos depois o resultado estaria bem aqui nas nossas mãos.
A primeira pergunta que tínhamos que enfrentar era: como orquestrar a música de um cara que não é apenas um dos maiores cantores-compositores, mas também um guitarrista fantástico que, sozinho, pode facilmente encantar e eletrizar uma plateia? Decidimos não utilizar música de fundo para o João, mas de alguma forma combinar sua mistura exclusiva de samba, rock e jazz com os recursos de uma orquestra de jazz contemporâneo europeu e seus solistas individuais. Com a ajuda dos contrabaixos incríveis de Ney Conceição e dos tambores impressionantes e inspiradores de Kiko Freitas, em alguns momentos a NDR Bigband de fato alcançou a energia de um vigoroso grupo de samba.
Este CD integra algumas das muitas personas de João Bosco: sua “africanidade” (a faceta afrobrasileira baseada no samba, como em “Nação”), sua faceta de rock’n’roll (“Bate um Balaio”), sua extraordinária sensibilidade para baladas (“Saída de Emergência”) e seu surpreendente talento como cantor de jazz. João pode transformar facilmente uma canção em uma aventura; basta ouvir seu “Desafinado” cheio de improvisos. Com sua última composição e duas outras canções, prestamos também um tributo ao grande Antonio Carlos Jobim, um grande amigo e fonte de inspiração para o João. Foi Maria Schneider quem sugeriu incluir a canção título, “Senhoras do Amazonas”, neste projeto, e assim fizemos. Essa é para você, Maria! A maior parte das canções originais de João provém de sua colaboração com Aldir Blanc, simplesmente uma das parcerias mais criativas da história da música popular brasileira. Essas canções falam de vida real e de pessoas reais, de bons e maus momentos mas, como todo verdadeiro artista, eles conduziram as histórias para um nível acima e além da realidade; graças à sensibilidade de Blanc pela poesia dos ritmos e à sensibilidade de João pela musicalidade das palavras. E esse é o grande motivo pelo qual essa música soa tão atual, mesmo tendo passado algumas décadas.
Outro motivo é o incrível talento de Steve Gray como arranjador e sua capacidade de criar empatia. Steve chegou ao âmago das coisas e transformou tudo em algo novo. Honestamente, eu não sabia que ele era fã da música de João até pedirmos para ele participar do projeto: “É claro que eu quero! Juntamente com AI Jarreau, João é meu cantor predileto”, disse Steve. Sem dúvida, essa foi uma precondição perfeita. É uma pena que Steve nunca tenha tido a chance de ouvir o resultado de seu trabalho, pois ele faleceu logo após o início das gravações. Mas estou muito feliz com o encontro dele com João. Lembro-me de Steve sentado no canto do estúdio enquanto João cantava, sorrindo de maneira misteriosa, como ele sempre fazia quando estava feliz. O arranjo foi feito no estilo dos grandes compositores clássicos: desenvolvendo uma ideia após a outra, quase sem repetições, nem o menor dos motivos. É por isso que a música pode crescer a cada execução. E como ocorre com os grandes mestres, Steve fazia coisas complexas parecerem muito simples. Músicos e apreciadores podem literalmente “mergulhar” nas harmonias criadas por ele. Por fim, do encontro entre João Bosco, Steve Gray e a NDR Bigband, tentamos redescobrir e oxalá reinventar um importante capítulo da música brasileira. Sei que pode parecer ousadia, mas como João diz: “É esse o sentido da arte: ousar coisas novas, todos os dias”.
Stefan Gerdes
Entre memórias, caminhos e canções, sigo sendo aquilo que o tempo e o coração inventam.
Entre memórias, caminhos e canções, sigo sendo aquilo que o tempo e o coração inventam.
