Release Não vou pro céu - Eucanaã Ferraz

A vida no fio da navalha

O novo trabalho de João Bosco faz o recente debate sobre a morte da canção parecer algo desde já superado, como uma discussão que serviu de incremento à crítica musical no Brasil, mas que já não serve como paradigma para se pensar o futuro.

É o álbum de um grande cantor, com domínio total da técnica, emoção na medida certa, um timbre pleno de brilho, áspero e cortante em sua doçura, cuja suavidade é mais uma de suas experimentações. É o disco de um grande instrumetista, ele mesmo uma escola do violão brasileiro, como, cada um a seu modo, João Gilberto, Baden Powell e Gilberto Gil. É o disco de um grande compositor, dono de uma linguagem própria, na qual as invenções melódicas e harmônicas soam simultaneamente espontâneas e requintadíssimas. A soma dos três criou sua história própria no vasto quadro da canção brasileira, e ganha agora, com Não vou pro céu mas já não vivo no chão, um acréscimo entusiasmador.
Só uma das parecerias com Aldir Blanc, “Navalha”, vale todas as comemorações possíveis pelo esperado retorno da dupla. O tema amoroso deságua na imagem de um Cristo crucificado, remetendo aos sofrimentos físico e espiritual, aos dramas e dilacerações do desejo que marcaram sobretudo o imaginário barroco. E, assim, a “paixão” de Cristo fala também da paixão do homem, reunindo numa única palavra-cravo o humano e o divino, a dor e o prazer, a luz e a escuridão, a vida e a morte. Não é por acaso que uma das parcerias com Francisco Bosco fale em primeira pessoa de uma “Alma barroca”. Barroca e mineira, poder-se-ia acrescentar. E, mais que isso, seria preciso notar o quanto a estética barroca de João Bosco, nesse novo álbum, dá-se como o barroco das igrejas das Minas Gerais: menos ornamental, austero, sutil nos seus jogos de claro-escuro, mais clássico portanto. A tortuosidade das linhas, a tensão entre massas e volumes, os dramas de luz e sombra e o culto formal surgem, então, sob o controle de uma economia voltada para o mínimo. Daí, ainda na canção “Navalha”, a voz, o violão de João Bosco e o contracanto do violão de Ricardo Silveira, criarem um ambiente de tensões sob controle e uma atmosfera mística, plena de sugestões.
Esse barroco suavemente erótico, melancólico, saudoso e a um só tempo intenso e mortal como uma lâmina pode ser visto ainda em outras imagens, como a do “teto

de igreja” na suavíssima canção de abertura, “Perfeição”, ou na pulsão de morte – ou melhor, de elevação, pela via do apagamento no vazio – da pungente “Desnortes”, na qual surge, outra vez, o Cristo – na paisagem do Rio – “levitando/ contra o céu”, e a dualidade dilacerante em afirmações como “sou atraído pelo infinito” e “tudo é febril, tudo quer ser, tudo lateja”. A letra de “Alma barroca” afirma: “Eu tenho o pé no chão/ e o coração no ar”. A de “Plural singular” fala do “não-ser virando ser”. E o título do álbum, retirado de “Sonho de caramujo”, funciona quase como uma palavra de ordem, declaração de princípios estéticos e existenciais: “Não vou pro céu mas já não vivo no chão”. Mesmo a paisagem é retratada na clave do paradoxo: “o sol/ o mar acende, prateado, quase glacial”. É na contradição e nas atrações paradoxais que se movem cuidadosamente os elementos constitutivos desse álbum. Sua alma barroca está aí, e não na ornamentação.

Tudo isso é apenas um dos modos possíveis de aproximação da complexidade e da beleza de Não vou pro céu mas já não vivo no chão. Aproximação que exige extremos ouvidos e atenção, já que estamos diante da vibração, da dor, da emoção, da alegria, de uma série de afetos, enfim, mas também do absoluto virtuosismo, num conjunto em que tudo é matematicamente preciso, em que a respiração se confunde com a voz, a voz com a pele, o corpo com o instrumento, o significado com o som. E se parece contraditório o vigor emotivo caber no rigor, na economia do mínimo, a audição reconhece facilmente uma unidade excepcional, que tende à concisão. É o que soa inequívoco em cada faixa.
O canto não perde sequer uma fração das sílabas. As canções, assim, brilham intensamente como fala, ou ainda, as letras materializam-se arquitetonicamente e seus sentidos emergem em absoluto equilíbrio com a música. Tudo soa exato como uma navalha. Poderia ser esse o título do álbum: “Navalha”. Porque tudo nele é, como uma lâmina, cortante: as canções, as cordas, o canto, os arranjos. Como na célebre imagem de João Cabral de Melo Neto, temos “uma faca só lâmina”: não há aproximar-se dela sem se ferir, não existe uma área segura, um mínimo lugar fora da intensidade e da beleza.

Basta ouvir “Tanto faz”, parceria de João com o filho, Francisco Bosco. A elegância do canto, preciso, reto, soa como o depoimento de uma vida em que não cabe mais qualquer ilusão. Um desabafo, que soaria sentimental decerto, não fosse a sua extrema força cética, seu senso de liberdade: “Eu vou partir/ Saio do jeito que eu vim/ Sem pedir nada a ninguém/ Sem nada pedir”. Só que, mais uma vez, a

contradição traz seu brilho de adaga quando, ao final, o vocalize lancinante – queixume, gemido, quase um grito – parece desmentir as palavras que diziam apenas das certezas, da lucidez e da ética imperturbável. Explosão e contenção, portanto, confundem-se numa dinâmica musical que em tudo lembra os grandes clássicos do samba carioca. Mas “Tanto faz” é mais que alusão ou homenagem, pois não seria difícil dizer que ele próprio é, desde já, um clássico.
Há mesmo em muitos momentos do álbum uma espécie de veio histórico a sustentar as canções, e que, ao mesmo tempo, é sustentado por elas. Refiro-me, por exemplo, a uma história do samba – dos anos 30 a João Gilberto – que parece soar nas harmonias de “Navalha”.

Do mesmo modo, “Pronto pra próxima”, inspirada parceria com Carlos Rennó, afigura-se como uma homenagem sutil a Orlando Silva, Gershwin e Tom Jobim. E é assim que outra parceria com Rennó, “Pintura”, tem uma leveza e um ritmo que remetem a Caetano e João Donato.

“Desnortes” é uma espécie de canção praieira carioca, contemporânea, com algo de Chico Buarque e Antonio Cicero, que faz um tocante retorno às serestas, ao mesmo tempo em que cita Caymmi num dos mais belos momentos do álbum.
“Mentiras de verdade”, da dupla Bosco-Blanc, é, por sua vez, um samba-canção de corte tradicional que parece apontar para Tito Madi, com seus sambas de harmonização moderna que tanto influenciaram a bossa nova. Também a letra de Aldir Blanc tem a elegância densa e a desilusão melancólica de “Chove lá fora” ou “Cansei de ilusões”. Mas a atmosfera não estaria completa sem o baixo de Jorge Helder, a guitarra de Ricardo Silveira, a bateria de Jurim Moreira e o violão de João Bosco.

Citação mais explícita talvez, tem lugar em “Jimbo no jazz”, espetacular parceria com Ney Lopes. O homenageado, Ray Charles, é lembrado nos vocais que abrem a canção, mas também no violão rítmico e na harmonia jazzística. Se a referência parece surpreendente, faz-se necessário ouvir, entre outras, “Bate um balaio ou Rockson do Pandeiro”, de Gagabirô (1984) ou Cabeça de nego (1986). Este último, sem dúvida, um dos discos mais experimentais da música brasileira, no qual emerge uma África inventada pela colagem de funk, samba, jazz, blue, umbanda, choro e rock and roll, com especiais referências a Bill Haley e seu “Rock around the clock”. Aqui, em “Jimbo no jazz”, soam clássicos de Ray Charles como “I got a woman”, “Don’t set me free” ou “What’d I say”. A lição – a mesma das canções de

Cabeça de nego – é ainda mais clara que a homenagem: “o jazz o samba e a milonga e o tango e candombe/ E a rumba e o mambo, tudo é lá do Congo”. O tributo maior é prestado, nessa declaração de universalidade da música negra, traduzida, digamos assim, na própria letra percussiva dessa canção que é praticamente um trava-língua, cheia de humor e balanço: “então, o samango, mondrongo, mubungo, piongo/ largou da rezinga e caiu no fandango”. Na historieta narrada pela canção, o personagem síntese de tudo só poderia ser um músico, Jimbo, o trombonista a quem cabe mostrar com a própria música que o jongo é um jazz, ou ainda, que tudo é África.

A presença africana é mais marcante porém, na deliciosa “Tanajura”, pelo ritmo, mas também pela guitarrada afro, miúda e dançante dos violões de João e Ricardo Silveira em feliz aliança com a percussão sutil mas expressiva de Robertinho Silva e Armando Marçal.
A conversa jazzística prossegue com a balada “Plural singular”, intimista, coltraneana, quando, mais uma vez, o quarteto formado por Jurim Moreira, Jorge Helder, Ricardo Silveira e João Bosco alcançam uma sonoridade sofisticada e quente, destacando-se um belíssimo improviso jazzístico.

O belo samba de Serafim Adriano, “Ingenuidade”, não deixa de ser uma sutil homenagem a Clementina de Jesus, referência absoluta de João Bosco, já que a canção foi gravada por ela no disco Clementina de Jesus (1976), com participação de Carlos Cachaça, onde ela também canta “Incompatibilidade de gênios”, de Bosco e Blanc. Na gravação de Não vou pro céu… canto e violão, aqui, sublinham o lirismo, o colorido suave e a simplicidade sofisticada do samba de Serafim Adriano (uma leitura oposta, portanto, à de Caetano em Zie e Zii, tão cerebral quanto sinuosa e áspera).
O despojamento de “Ingenuidade” tem seu contraponto imediato em “Alma barroca”, trabalhada, densa, espinhosa, com canto e violão excitados e bem desenhados em curvas ascendentes.

Ao encerrar o álbum, “Sonho de caramujo”, parceria com Aldir Blanc, funciona como uma espécie de profissão de fé: um rito que sinaliza claramente uma orientação, que atesta um desejo e um compromisso. A brevidade da letra contraria o que se espera do formato samba-enredo, assim como a afirmação de uma intimidade, de quase um fechamento – “eu moro dentro da casca do meu violão” –, contradiz a tendência coletivista do gênero. A extroversão do canto, num registro altíssimo, parece levar ao paroxismo a interpretação dos cantores de escolas-de-samba, enquanto a escolha do acompanhamento – dois violões apenas – outra vez quebra a expectativa

da óbvia presença de uma percussão, aqui reduzida a poucas batidas na madeira do violão, gesto com o qual o instrumentista “caramujo” assevera o valor e a totalidade de sua casa-casca. Mas se a letra, invertendo os sinais do samba-enredo tradicional, narra uma história pessoal, em primeira pessoa, lá está, no entanto, a paisagem exótica, bem ao gosto dos carnavalescos: “E eu andando de elefante em Bombaim”. Paisagem inventada, fruto da imaginação, pode-se dizer, portanto, que este samba é uma exaltação do livro e da leitura, que dialoga em registro popular com um clássico de Castro Alves, “O livro e a América” (“Bendito o que semeia/ Livros… livros à mão cheia…/ E manda o povo pensar!/ O livro caindo n’alma/ É germe — que faz a palma,/ É chuva — que faz o mar (…)”. Livro e violão se equivalem, são moradas essenciais, intestinas, sim, mas que abastecem a fantasia e alargam horizontes de tempo e espaço.

Assim, na concha do violão de João Bosco parece ecoar a história do samba, da música brasileira, da música negra norte-americana, caribenha, as músicas anônimas das velhas Gerais e da Cidade do Salvador, mas também os Beatles e, por fim, toda a obra musical do próprio Bosco com seus parceiros, cabendo destacar, sem dúvida, este magnífico Aldir Blanc, e a certeza de um novo grande letrista: Francisco Bosco. Tudo se dobra e se confunde numa espiral – outra vez, o barroco – com voltas e giros onde sombra e luz dão corpo e alma a canções que reafirmam a vida e expulsam a morte para muito longe.

Eucanaã Ferraz

Entre memórias, caminhos e canções, sigo sendo aquilo que o tempo e o coração inventam.

Entre memórias, caminhos e canções, sigo sendo aquilo que o tempo e o coração inventam.