Release - Malabaristas do Sinal Vermelho

Dentre as milhares de imagens que povoam o cotidiano da cidade do Rio de Janeiro nesse começo de século, uma se destaca: as crianças de rua fazendo malabarismos com bolinhas de tênis diante dos carros parados sob o sinal vermelho. Destaca-se porque reúne e sintetiza, em uma única cena, concreta e brutal, os aspectos mais característicos do conflito social sem tréguas que tem lugar na cidade. Esses aspectos se condensam todos no momento em que a criança, ao pedir um trocado ao motorista, após fazer sua exibição, dá de cara com um vidro fechado. No vidro, toda a complexidade da cidade: o vidro separa, declara o muro social, mas esse muro é transparente e contraditório, pois através dele a criança tem acesso a sua imagem, reconhece sua marginalidade num espelho que é na verdade o olhar do outro, e que lhe sentencia justamente sua impossibilidade de ser vista.

O vidro é a metáfora da cidade: partida, sim, mas por fronteiras extremamente precárias, transparentes, vulneráveis. O vidro é limite e espelho, lugar onde as identidades se separam e esclarecem reciprocamente. O vidro é também limiar: revela a invisibilidade dos excluídos para eles mesmos, ao mesmo tempo que revela a excessiva e vulnerável visibilidade de quem está do outro lado. Tudo isso numa única imagem. Mas essa imagem, experimentada ao rés do real, pode ser vivenciada sem a dimensão de seu sentido. É preciso dar distância a essa imagem, destacá-la do real e então tentar tornar visível o sentido que a sustenta: pois muitas vezes a representação é necessária para que se possa experimentar o real em toda sua intensidade de sentido, sentido que escapa quando, por estarmos excessivamente próximos, não temos a distância necessária para enxergar. Pois dar sentido, em forma de canções, a essa e outras experiências – seja do cotidiano da cidade (como na faixa-título, ou em “Cinema Cidade” e “Distâncias”), seja dos relacionamentos amorosos (“Eu Não Sei Seu Nome Inteiro”, “Não me Arrependo de Nada”) ou de nossa condição histórica e existencial (“Moral da História”, “Pernas de Pau”)
– da vida nesse começo de século é a tarefa a que se dedicou esse disco de João Bosco,
Malabaristas do Sinal Vermelho.

Nele, reconheceremos a manutenção ativa de certos traços da rubrica pessoal de João Bosco: o samba azeitado (“Terreiro de Jesus”, “De Mamadeira”), a cabeça de nego

(sua versão para “Andar com Fé”), o gosto pela ironia e o humor (“Benzetacil”, “Jogos de Arrasar”), as belas melodias das canções de amor (“Eu Não Sei Seu Nome Inteiro”, “Não me Arrependo de Nada”). Pois de um disco novo de um João Gilberto, por exemplo, não se deseja qualquer “novidade”, apenas que a sua forma esteja em forma. Mas além desses traços, nos quais se reconhece a diferença de sua assinatura, outros traços se voltam contra essa própria assinatura, diferindo dela mesma. É que João Bosco, que acaba de completar trinta anos de carreira, percebeu que a maneira de tornar essa data realmente comemorativa era entregar-se a um projeto autoral, quando geralmente uma data redonda e significativa como esta serve de pretexto a lançamentos do tipo “revisão- de-carreira-sob-forma-de-antologia”.

E autoral no sentido mais rigoroso do termo: insistindo na construção de uma diferença, tanto em relação à produção cultural de seu tempo, quanto em relação a sua própria marca. Isso se manifesta em canções como “Moral da História”, carregada da estranheza e dramaticidade de um pequeno épico pós-moderno; na utilização de recursos da música eletrônica para fins expressivos em “Cinema Cidade”, que tem a participação de Seu Jorge; ou ainda na atualização da temática social (tão característica de seu trabalho nos anos setenta), da faixa-título, que conta com a participação do coral da Escola de Música da Rocinha; no diálogo entre Villa-Lobos e o maracatu, em “Pernas de Pau”; finalmente em “Distâncias”, uma reflexão musical sobre os percursos da identidade brasileira.

Francisco Bosco

Entre memórias, caminhos e canções, sigo sendo aquilo que o tempo e o coração inventam.

Entre memórias, caminhos e canções, sigo sendo aquilo que o tempo e o coração inventam.